Sustentabilidade – Vozes em diálogo

Estruturar um abastecimento mais responsável

Em um contexto marcado pela instabilidade dos mercados e pelas crescentes exigências em termos de sustentabilidade, Simon Chapron, Diretor de Compras de Matérias-Primas da TIMAC AGRO International, e Alan Lec’hvien, Diretor de Operações da Phosphea, compartilham sua experiência e detalham a transformação em andamento referente às práticas de abastecimento do Groupe Roullier.

Como vocês estruturam a gestão dos riscos relacionados aos mercados de matérias-primas e como garantem a continuidade do abastecimento?

Simon Chapron / Atuamos em mercados impactados por grandes choques e transformações estruturais, que tornam os ciclos menos claros e previsíveis, bem como em um ambiente regulatório em constante mudança. Partimos do princípio de que haverá perturbações e nos organizamos para enfrentá-las sem comprometer a continuidade das nossas operações. Nosso desafio é antecipá-las e controlá-las, pensando antecipadamente em cenários para que possamos nos adaptar de forma rápida e consistente.
Alan Lec’hvien / Nosso modelo é historicamente baseado em uma estratégia de abastecimento de várias fontes, projetada para reduzir a exposição aos riscos geopolíticos e às flutuações do mercado. Essa abordagem se traduz em uma organização do abastecimento baseada em várias regiões geográficas e em uma rede de parceiros diversificada.

Como o abastecimento de matérias-primas contribui para o desempenho geral do Grupo?

A. L. / As matérias-primas condicionam nossa capacidade de produzir, entregar e cumprir os compromissos que temos com os clientes ao longo do tempo. Elas também têm um papel fundamental no desempenho dos nossos produtos e no desenvolvimento de soluções com menor impacto ambiental.
S. C. / Mantendo uma vigilância ativa e buscando novas matérias-primas para o Centre Mondial de l’Innovation Roullier, estabelecemos a interface com os mercados fornecedores nos projetos de inovação.

De que forma vocês integram os requisitos de conformidade e governança na seleção e no monitoramento dos fornecedores?

S. C. / A integração dos critérios ESG em nossas decisões de compras é baseada em uma abordagem estruturada, dando atenção especial aos requisitos de governança e conformidade. Implementamos um processo de qualificação e controle dos nossos parceiros, que inclui verificações reforçadas das estruturas de propriedade, dos beneficiários finais e da exposição a riscos regulatórios ou a sanções. Esse trabalho é complementado por ferramentas especializadas e conhecimento direto dos nossos parceiros, fortalecendo a transparência e a segurança dos nossos fluxos antes do início de qualquer relação comercial.
A. L. / Continuamos a implantar e harmonizar esses sistemas em todo o Grupo, a fim de garantir sua cobertura e confiabilidade e de integrá-los totalmente em nossa gestão de riscos e abastecimento.

Quais são os princípios que orientam suas colaborações hoje?

A. L. / Construímos relacionamentos duradouros com parceiros confiáveis, baseados na confiança mútua. Impulsionados por nossos altos padrões, trabalhamos em estreita colaboração com eles para implementar processos de melhoria contínua.
S. C. / Nossos relacionamentos com os fornecedores se baseiam em princípios de exigência, confiabilidade e responsabilidade a longo prazo. Trabalhamos com parceiros capazes de manter seus compromissos e acompanhar as mudanças em nosso ambiente, particularmente referentes a questões ambientais e de conformidade.

Quais são as áreas prioritárias em termos de inovação?

S. C. / Estamos trabalhando na melhoria da eficiência dos materiais, na redução do seu impacto ambiental e na integração controlada de novas alternativas. Privilegiamos soluções que sejam robustas, industrializáveis e criem valor a longo prazo, compatíveis com os nossos requisitos operacionais. Essa abordagem se baseia num ecossistema estruturado, vinculado principalmente ao Centre Mondial de l’Innovation Roullier, estando também ancorada nas dinâmicas locais, reforçando sua relevância e aplicabilidade.
A. L. / Desenvolvemos projetos visando integrar fontes renováveis na fabricação dos nossos produtos. Estamos, por exemplo, desenvolvendo o uso de coprodutos, como vieiras, para substituir parcialmente o cálcio usado atualmente. Outras iniciativas também estão em andamento, em particular em torno da valorização de conchas de mexilhão e espinhas de peixe.

Podem nos falar de outras frentes de ação para reduzir a pegada de carbono do abastecimento?

S. C. / Reduzir a pegada de carbono não se limita à escolha das matérias-primas: envolve também a transformação do transporte marítimo, que representa uma parte significativa dos nossos fluxos. Nossa abordagem consiste em atuar tanto na sua organização quanto nas frentes de ação tecnológicas. Estamos integrando progressivamente soluções de transporte de baixa emissão: em 2025, quase 20% dos navios fretados tiveram melhor desempenho ambiental, inclusive graças a sistemas de propulsão à vela ou híbrida, reduzindo as emissões por viagem em até 30%. Também trabalhamos na eficiência dos nossos modelos logísticos: melhor planejamento dos fluxos, otimização das rotas e das taxas de ocupação, e redução de trajetos ineficientes.
A. L. / A otimização dos fluxos logísticos também é um eixo importante na Phosphea. Passamos a compartilhar alguns deles com a TIMAC AGRO, especialmente por meio do afretamento de um navio híbrido com propulsão elétrica. Também implementamos um transporte diário com biocombustível B100 entre um fornecedor de matérias-primas e nossa usina de Saint-Malo, o que evita a emissão de cerca de 37 toneladas de CO₂ por ano. Nosso objetivo é implantar uma segunda rota em 2026.